quarta-feira, 24 de agosto de 2016

todas as cartas de amor são ridículas, mas...

Depois de muito remoer o fato de as nossas reticências terem virado um ponto final, resolvi te escrever. 
Nao encare como uma tentativa desesperada de te fazer voltar (a menos que você queira) (brincadeira) (é esteticamente ou gramaticalmente aceitável fazer esse uso displicente de parênteses?) (sigamos).
A questão é que esse nosso tempo quase-juntos-quase-nos-amando foi importante pra mim e eu nunca te disse isso. Não disse porque já era notório, convenhamos. Meus dias não aconteciam se não tivesse um pouco de você. Preciso confessar que eu às vezes passava um tempo considerável procurando uma desculpa pra te ligar. 

É sério. As tuas cores transformaram a minha vida de uma maneira tão encantadora que era quase vital te manter perto. Mesmo se fosse entre aspas. 

Eu tô escrevendo pra dizer que tudo era bonito demais em nossa brincadeira de sentir algo tão sério. Mas fomos tolos de acreditar que podia ser assim pra sempre. Você principalmente, porque já deveria saber que quando o assunto sou eu a coisa toda vai - eventualmente - degringolar
Você escreveu uma poesia linda no meu coração e eu não considero descartá-la por enquanto, ainda que tenha precisado me desfazer de todas as nossas possibilidades.
Joguei fora a maioria das coisas que você disse,  todos os textos em que (des)crevi você e algumas daquelas canções que te traziam com uma melancolia que não convém, sabe?  Mas admito: ainda mantenho guardados os beijos que nunca te dei. E os abraços. E alguns detalhes...
Detesto soar piegas, mas é nisso que dá revirar esse baú dos  "sentimentos deixados pra lá porque a vida é assim mesmo".
Posso te falar mais uma coisa? Enquanto eu testemunhava o fim da nossa história, me perguntei diversas vezes onde será que foi o ponto exato em que desandamos. Fiquei perdida em devaneios tão grotescos que devo ter contribuído uns 30%  pra acelerar o processo. No fim,cheguei a uma irritada e orgulhosa conclusão: o azar foi teu.
Obviamente que não durei meia hora nessa autoconfiança e desejei amargamente que você voltasse, durante dias demais pra que eu admita em voz alta. Quis que você dissesse que queria. Que aceitava. Que sentia minha falta até em horários estranhos, tipo aqueles minutos entre o almoço e o cochilo, quando não estamos necessariamente pensando em nada significativo.
Mas aí veio o fato de que já não éramos o que fomos e eu não podia alimentar um sentimento estagnado. No fundo, eu  não sinto a mesma saudade, já que o tempo se encarrega de escantear algumas coisas, mas ainda sinto  algo bem bonito.  Não só pela tua lembrança,  mas pelo que você é. Pelo que você me fez querer ser. Pelo que quase fomos.

Às vezes eu penso no reencontro dos nossos caminhos em um momento em que as coisas sejam possíveis.  Enquanto isso, deixarei guardadas todas as coisas tuas que cresceram em mim. Mesmo que eu nunca saiba direito que coisas são essas, ou aonde elas seriam capazes de me levar.

Você ainda faz parte de alguns dos meus versos mais bonitos.


quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Ela partiu

"Se souberem onde ela está, digam-me, 
que eu vou lá buscá-la." (Tim Maia)


Aquela menina me tirou dos eixos no momento em que sorriu na minha direção – e não necessariamente para mim, como fez questão de deixar claro um tempo depois. Eu soube naquele instante que não daria para voltar atrás, a partir dali eu já era completamente dela. Acho que foi alguma coisa no enrolado dos seus cabelos, que me fazia lembrar da minha própria vida. 

Juro que tentei evitar, até me mantive o mais distante possível. Mas ela tinha aquele ar despretensioso e um jeito manso de dizer "vem cá" que me fazia ir, de novo, todas as vezes.
Claro que eu não admitiria nem por um decreto que ela exercia algum poder -mínimo que fosse - sobre mim. Eu fiz o jogo, juro, de vez em quando eu sumia, não ligava e até falava de outros amores e conquistas de peito inflado. Vez ou outra até vestia um desdém quase infantil quando ela contava as deliciosas e fascinantes histórias que inventava pra se distrair...

Apesar das minhas babaquices,viemos um romance meio às avessas que tinha mais sede do que calmaria, gostoso pra caralho.  Eu não falava, mas via futuro no reflexo de seus olhos e me pegava tendo certeza de que quase todas as nossas partes eram encaixes perfeitos um do outro. 

Eu estava completamente apaixonado até pelos bilhetes desconexos que ela me deixava de manhã, com entrelinhas estranhas que mais tarde ela afirmou que queriam dizer paixão. E até pelos joguinhos. E até pela camiseta velha do Elvis que ela insistia em usar descombinando com várias peças de roupa. Mas eu não queria dizer. Existia uma parte de mim que acreditava que a teria para sempre, assim, sem esforço.

Daí que um belo dia ela me ligou pedindo uma cerveja. Chegou aqui com uma pressa e um sorriso nos lábios que quase me fizeram esquecer que dia era. Mas eu lembro: era terça-feira e o céu apresentava um estrelado fora do comum. Nos amamos no sofá, naquela noite.

Mais tarde,  enquanto fumava um cigarro em frente à janela do meu quarto, ela disse: "Guto, eu tô apaixonada."
Gelei. (Eu também! Eu também!)
"Eu acho melhor a gente parar de se ver", ela continuou.
"Mas  por isso? Quer dizer, você não precisa fugir do sentimento. As coisas são mais simples do que parecem." - eu tentei.
"Não, cara. Fugir? Eu quero me atirar. Eu tô mergulhando fundo nisso, cara. Pela primeira vez em muito tempo sinto que não há esforço.. É calmaria, Guto. E quis vir me despedir de você porque tu foi parte importante pra que eu me apaixonasse. Essa nossa coisa louca, sabe?".

Não, eu não sabia. E eu já estava meio perdido naquela conversa toda. Bebi um gole da cerveja e pedi que me explicasse. 

"Cara, o que eu vivi contigo foi uma bagunça né? Tu tava meio que se esquivando em tempo integral. Daí eu conheci o... Eu conheci outra pessoa. E foi tudo fluido. Daí eu não queria perder você, mas às vezes a gente faz escolhas né? Eu poderia viver mil histórias como a nossa, lindas pra pôr num papel. Vários poemas e músicas e trilhas sonoras e... E só. Ou eu posso viver a minha história. A minha história de amor, boba,  calma, sem grandes reviravoltas, só.. Amor sabe? Eu meio que aprendi isso com a gente, porque eu sinto um pouco de amor pelo que somos um pro outro...mas não por você.
Sei lá, me vi escorregar pelos seus dedos enquanto você insistia nessa coreografia vazia de me manter por perto apenas o quanto fosse suficiente. Eu não quero mais isso, cara. Eu quero casa cheia, coração transbordando, eu quero alguém que responda os meus bilhetes, caralho! E eu agora tenho. Então é meio que isso, vim aqui pra te dizer que não volto mais. Mas a gente ainda pode ser amigo, digo, daqui a um tempo, né?"

Ela ia dizendo isso, enquanto pegava as coisas pelo quarto e eu não conseguia organizar as idéias pra dizer alguma coisa, pra pedir que ficasse, pra gritar que - porra - eu a amava. Só consegui voltar os pensamentos para a realidade quando ela já havia batido a porta (pelo lado de fora) e se mandado.
Procurei em mim alguma força para correr atrás dela e fazer qualquer coisa parecida com cenas de filme. Mas permaneci ali, sentado, pensando em que parte dessa história eu fui capaz de permitir que ela me deixasse. Quando eu deixei de ser o que ela queria? 

Não nos falamos mais, depois daquela terça-feira. 
Hoje pensei nela, ontem também. Amanhã, com certeza. 

Talvez eu devesse ter feito algo, penso nisso todos os dias. Mas eu acho que o nosso era aquele tipo de amor que não vale a pena refazer depois do fim.

A única coisa que eu sei sobre essa história meio louca é que aquela menina me tirou dos eixos no momento em que sorriu na minha direção e depois que ela foi embora eu nunca mais fui o mesmo. Nem o meu apartamento, nem as minhas manhãs (agora sem bilhetes), nem o meu coração.