quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Ela partiu

"Se souberem onde ela está, digam-me, 
que eu vou lá buscá-la." (Tim Maia)


Aquela menina me tirou dos eixos no momento em que sorriu na minha direção – e não necessariamente para mim, como fez questão de deixar claro um tempo depois. Eu soube naquele instante que não daria para voltar atrás, a partir dali eu já era completamente dela. Acho que foi alguma coisa no enrolado dos seus cabelos, que me fazia lembrar da minha própria vida. 

Juro que tentei evitar, até me mantive o mais distante possível. Mas ela tinha aquele ar despretensioso e um jeito manso de dizer "vem cá" que me fazia ir, de novo, todas as vezes.
Claro que eu não admitiria nem por um decreto que ela exercia algum poder -mínimo que fosse - sobre mim. Eu fiz o jogo, juro, de vez em quando eu sumia, não ligava e até falava de outros amores e conquistas de peito inflado. Vez ou outra até vestia um desdém quase infantil quando ela contava as deliciosas e fascinantes histórias que inventava pra se distrair...

Apesar das minhas babaquices,viemos um romance meio às avessas que tinha mais sede do que calmaria, gostoso pra caralho.  Eu não falava, mas via futuro no reflexo de seus olhos e me pegava tendo certeza de que quase todas as nossas partes eram encaixes perfeitos um do outro. 

Eu estava completamente apaixonado até pelos bilhetes desconexos que ela me deixava de manhã, com entrelinhas estranhas que mais tarde ela afirmou que queriam dizer paixão. E até pelos joguinhos. E até pela camiseta velha do Elvis que ela insistia em usar descombinando com várias peças de roupa. Mas eu não queria dizer. Existia uma parte de mim que acreditava que a teria para sempre, assim, sem esforço.

Daí que um belo dia ela me ligou pedindo uma cerveja. Chegou aqui com uma pressa e um sorriso nos lábios que quase me fizeram esquecer que dia era. Mas eu lembro: era terça-feira e o céu apresentava um estrelado fora do comum. Nos amamos no sofá, naquela noite.

Mais tarde,  enquanto fumava um cigarro em frente à janela do meu quarto, ela disse: "Guto, eu tô apaixonada."
Gelei. (Eu também! Eu também!)
"Eu acho melhor a gente parar de se ver", ela continuou.
"Mas  por isso? Quer dizer, você não precisa fugir do sentimento. As coisas são mais simples do que parecem." - eu tentei.
"Não, cara. Fugir? Eu quero me atirar. Eu tô mergulhando fundo nisso, cara. Pela primeira vez em muito tempo sinto que não há esforço.. É calmaria, Guto. E quis vir me despedir de você porque tu foi parte importante pra que eu me apaixonasse. Essa nossa coisa louca, sabe?".

Não, eu não sabia. E eu já estava meio perdido naquela conversa toda. Bebi um gole da cerveja e pedi que me explicasse. 

"Cara, o que eu vivi contigo foi uma bagunça né? Tu tava meio que se esquivando em tempo integral. Daí eu conheci o... Eu conheci outra pessoa. E foi tudo fluido. Daí eu não queria perder você, mas às vezes a gente faz escolhas né? Eu poderia viver mil histórias como a nossa, lindas pra pôr num papel. Vários poemas e músicas e trilhas sonoras e... E só. Ou eu posso viver a minha história. A minha história de amor, boba,  calma, sem grandes reviravoltas, só.. Amor sabe? Eu meio que aprendi isso com a gente, porque eu sinto um pouco de amor pelo que somos um pro outro...mas não por você.
Sei lá, me vi escorregar pelos seus dedos enquanto você insistia nessa coreografia vazia de me manter por perto apenas o quanto fosse suficiente. Eu não quero mais isso, cara. Eu quero casa cheia, coração transbordando, eu quero alguém que responda os meus bilhetes, caralho! E eu agora tenho. Então é meio que isso, vim aqui pra te dizer que não volto mais. Mas a gente ainda pode ser amigo, digo, daqui a um tempo, né?"

Ela ia dizendo isso, enquanto pegava as coisas pelo quarto e eu não conseguia organizar as idéias pra dizer alguma coisa, pra pedir que ficasse, pra gritar que - porra - eu a amava. Só consegui voltar os pensamentos para a realidade quando ela já havia batido a porta (pelo lado de fora) e se mandado.
Procurei em mim alguma força para correr atrás dela e fazer qualquer coisa parecida com cenas de filme. Mas permaneci ali, sentado, pensando em que parte dessa história eu fui capaz de permitir que ela me deixasse. Quando eu deixei de ser o que ela queria? 

Não nos falamos mais, depois daquela terça-feira. 
Hoje pensei nela, ontem também. Amanhã, com certeza. 

Talvez eu devesse ter feito algo, penso nisso todos os dias. Mas eu acho que o nosso era aquele tipo de amor que não vale a pena refazer depois do fim.

A única coisa que eu sei sobre essa história meio louca é que aquela menina me tirou dos eixos no momento em que sorriu na minha direção e depois que ela foi embora eu nunca mais fui o mesmo. Nem o meu apartamento, nem as minhas manhãs (agora sem bilhetes), nem o meu coração.

4 comentários:

Sara com Cafe disse...

Apensar de tudo, que sentimento bonito. Imagino que doeu em Guto, como doei em muitas outras pessoas. Nunca estamos disponíveis para sofrer... e isso é terrível.

Abraço profundo.

Natália Pereira disse...

Fiquei presa nesse texto de tão maravilhoso que é, por alguns segundos pensei que estava lendo um livro de tão envolvente.
É aquele velho ditado né, só damos valor quando perdemos.
Ele poderia ter valorizado mais ela e ter ficado com ela, ao invés de ter fugido o tempo todo. O que restou foi a saudade.

Beijos
Mundo de Nati

Jaya Magalhães disse...

Não sei se você vai concordar comigo, até porque não revisito há tempos os textos dela, mas essa menina e Dulce se dariam super bem.

Eu gostei de ver hoje sua escrita ganhar nova forma. A narração. O tom. E gostei principalmente de ter conseguido ler e assistir. Porque sua maestria veio nisso.

Tô feliz de estar voltando principalmente por notar que você está voltando junto.

Um beijo, Má.

Ela mesma: Eu disse...

Show