quarta-feira, 24 de agosto de 2016

todas as cartas de amor são ridículas, mas...

Depois de muito remoer o fato de as nossas reticências terem virado um ponto final, resolvi te escrever. 
Nao encare como uma tentativa desesperada de te fazer voltar (a menos que você queira) (brincadeira) (é esteticamente ou gramaticalmente aceitável fazer esse uso displicente de parênteses?) (sigamos).
A questão é que esse nosso tempo quase-juntos-quase-nos-amando foi importante pra mim e eu nunca te disse isso. Não disse porque já era notório, convenhamos. Meus dias não aconteciam se não tivesse um pouco de você. Preciso confessar que eu às vezes passava um tempo considerável procurando uma desculpa pra te ligar. 

É sério. As tuas cores transformaram a minha vida de uma maneira tão encantadora que era quase vital te manter perto. Mesmo se fosse entre aspas. 

Eu tô escrevendo pra dizer que tudo era bonito demais em nossa brincadeira de sentir algo tão sério. Mas fomos tolos de acreditar que podia ser assim pra sempre. Você principalmente, porque já deveria saber que quando o assunto sou eu a coisa toda vai - eventualmente - degringolar
Você escreveu uma poesia linda no meu coração e eu não considero descartá-la por enquanto, ainda que tenha precisado me desfazer de todas as nossas possibilidades.
Joguei fora a maioria das coisas que você disse,  todos os textos em que (des)crevi você e algumas daquelas canções que te traziam com uma melancolia que não convém, sabe?  Mas admito: ainda mantenho guardados os beijos que nunca te dei. E os abraços. E alguns detalhes...
Detesto soar piegas, mas é nisso que dá revirar esse baú dos  "sentimentos deixados pra lá porque a vida é assim mesmo".
Posso te falar mais uma coisa? Enquanto eu testemunhava o fim da nossa história, me perguntei diversas vezes onde será que foi o ponto exato em que desandamos. Fiquei perdida em devaneios tão grotescos que devo ter contribuído uns 30%  pra acelerar o processo. No fim,cheguei a uma irritada e orgulhosa conclusão: o azar foi teu.
Obviamente que não durei meia hora nessa autoconfiança e desejei amargamente que você voltasse, durante dias demais pra que eu admita em voz alta. Quis que você dissesse que queria. Que aceitava. Que sentia minha falta até em horários estranhos, tipo aqueles minutos entre o almoço e o cochilo, quando não estamos necessariamente pensando em nada significativo.
Mas aí veio o fato de que já não éramos o que fomos e eu não podia alimentar um sentimento estagnado. No fundo, eu  não sinto a mesma saudade, já que o tempo se encarrega de escantear algumas coisas, mas ainda sinto  algo bem bonito.  Não só pela tua lembrança,  mas pelo que você é. Pelo que você me fez querer ser. Pelo que quase fomos.

Às vezes eu penso no reencontro dos nossos caminhos em um momento em que as coisas sejam possíveis.  Enquanto isso, deixarei guardadas todas as coisas tuas que cresceram em mim. Mesmo que eu nunca saiba direito que coisas são essas, ou aonde elas seriam capazes de me levar.

Você ainda faz parte de alguns dos meus versos mais bonitos.


quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Ela partiu

"Se souberem onde ela está, digam-me, 
que eu vou lá buscá-la." (Tim Maia)


Aquela menina me tirou dos eixos no momento em que sorriu na minha direção – e não necessariamente para mim, como fez questão de deixar claro um tempo depois. Eu soube naquele instante que não daria para voltar atrás, a partir dali eu já era completamente dela. Acho que foi alguma coisa no enrolado dos seus cabelos, que me fazia lembrar da minha própria vida. 

Juro que tentei evitar, até me mantive o mais distante possível. Mas ela tinha aquele ar despretensioso e um jeito manso de dizer "vem cá" que me fazia ir, de novo, todas as vezes.
Claro que eu não admitiria nem por um decreto que ela exercia algum poder -mínimo que fosse - sobre mim. Eu fiz o jogo, juro, de vez em quando eu sumia, não ligava e até falava de outros amores e conquistas de peito inflado. Vez ou outra até vestia um desdém quase infantil quando ela contava as deliciosas e fascinantes histórias que inventava pra se distrair...

Apesar das minhas babaquices,viemos um romance meio às avessas que tinha mais sede do que calmaria, gostoso pra caralho.  Eu não falava, mas via futuro no reflexo de seus olhos e me pegava tendo certeza de que quase todas as nossas partes eram encaixes perfeitos um do outro. 

Eu estava completamente apaixonado até pelos bilhetes desconexos que ela me deixava de manhã, com entrelinhas estranhas que mais tarde ela afirmou que queriam dizer paixão. E até pelos joguinhos. E até pela camiseta velha do Elvis que ela insistia em usar descombinando com várias peças de roupa. Mas eu não queria dizer. Existia uma parte de mim que acreditava que a teria para sempre, assim, sem esforço.

Daí que um belo dia ela me ligou pedindo uma cerveja. Chegou aqui com uma pressa e um sorriso nos lábios que quase me fizeram esquecer que dia era. Mas eu lembro: era terça-feira e o céu apresentava um estrelado fora do comum. Nos amamos no sofá, naquela noite.

Mais tarde,  enquanto fumava um cigarro em frente à janela do meu quarto, ela disse: "Guto, eu tô apaixonada."
Gelei. (Eu também! Eu também!)
"Eu acho melhor a gente parar de se ver", ela continuou.
"Mas  por isso? Quer dizer, você não precisa fugir do sentimento. As coisas são mais simples do que parecem." - eu tentei.
"Não, cara. Fugir? Eu quero me atirar. Eu tô mergulhando fundo nisso, cara. Pela primeira vez em muito tempo sinto que não há esforço.. É calmaria, Guto. E quis vir me despedir de você porque tu foi parte importante pra que eu me apaixonasse. Essa nossa coisa louca, sabe?".

Não, eu não sabia. E eu já estava meio perdido naquela conversa toda. Bebi um gole da cerveja e pedi que me explicasse. 

"Cara, o que eu vivi contigo foi uma bagunça né? Tu tava meio que se esquivando em tempo integral. Daí eu conheci o... Eu conheci outra pessoa. E foi tudo fluido. Daí eu não queria perder você, mas às vezes a gente faz escolhas né? Eu poderia viver mil histórias como a nossa, lindas pra pôr num papel. Vários poemas e músicas e trilhas sonoras e... E só. Ou eu posso viver a minha história. A minha história de amor, boba,  calma, sem grandes reviravoltas, só.. Amor sabe? Eu meio que aprendi isso com a gente, porque eu sinto um pouco de amor pelo que somos um pro outro...mas não por você.
Sei lá, me vi escorregar pelos seus dedos enquanto você insistia nessa coreografia vazia de me manter por perto apenas o quanto fosse suficiente. Eu não quero mais isso, cara. Eu quero casa cheia, coração transbordando, eu quero alguém que responda os meus bilhetes, caralho! E eu agora tenho. Então é meio que isso, vim aqui pra te dizer que não volto mais. Mas a gente ainda pode ser amigo, digo, daqui a um tempo, né?"

Ela ia dizendo isso, enquanto pegava as coisas pelo quarto e eu não conseguia organizar as idéias pra dizer alguma coisa, pra pedir que ficasse, pra gritar que - porra - eu a amava. Só consegui voltar os pensamentos para a realidade quando ela já havia batido a porta (pelo lado de fora) e se mandado.
Procurei em mim alguma força para correr atrás dela e fazer qualquer coisa parecida com cenas de filme. Mas permaneci ali, sentado, pensando em que parte dessa história eu fui capaz de permitir que ela me deixasse. Quando eu deixei de ser o que ela queria? 

Não nos falamos mais, depois daquela terça-feira. 
Hoje pensei nela, ontem também. Amanhã, com certeza. 

Talvez eu devesse ter feito algo, penso nisso todos os dias. Mas eu acho que o nosso era aquele tipo de amor que não vale a pena refazer depois do fim.

A única coisa que eu sei sobre essa história meio louca é que aquela menina me tirou dos eixos no momento em que sorriu na minha direção e depois que ela foi embora eu nunca mais fui o mesmo. Nem o meu apartamento, nem as minhas manhãs (agora sem bilhetes), nem o meu coração.

sábado, 30 de julho de 2016

Para um quase amor de quarta-feira.

Amor também é quando a gente esquece do resto do mundo
 por cinco minutos, só pra estar com aquela pessoa agora. 
Mesmo que não passe disso.” 
(D. 21, artista de rua- falando sobre a vida 
enquanto tentava me vender um colar).

Talvez amanhã nada disso faça sentido.”, pensei enquanto nos beijávamos.
Era muito provável isso virar uma daquelas lembranças que nos vêm à mente provocando risinho no canto da boca, e só.
Talvez nem signifique todas as coisas nas quais eu estava pensando naquele exato momento, e tudo fosse só um emaranhado de encantamentos frívolos, que sequer fariam sentido dali a cinco minutos.
Mas,ali, enquanto enxergava os tons de marrom dos seus olhos e tinha suas mãos na minha cintura sob o céu estrelado de uma noite fria: eu te quis.

E imaginei, por alguns segundos, o quão maravilhoso era o encontro das nossas almas prestes a se beijarem com a urgência adolescente mais gostosa das últimas décadas.
Queria ir pra casa e te ligar pra dizer que seu cheiro ficou na minha roupa, e que muito provavelmente eu fosse dormir pensando em você.

Parece uma grande bobagem, mas eu já conseguia me imaginar indo dormir pensando em você pelas próximas quatrocentas noites, depois dessa. E mais.

Eu me apaixonei por você em cinco segundos. Foi logo depois de fechar os olhos e continuar vendo o teu sorriso.

É inacreditável o quão pouco podemos prever sobre o que vem depois de um beijo. E mais inacreditável ainda, o quanto eu não me importava com isso, estando ali.

Acho que congelei o tempo nesse teu abraço. Pra guardar num cantinho quente da memória e acessar todas as vezes em que me sentisse vazia, porque você me preencheu de sensações agradáveis, só por estar.

Eu estava querendo você tanto naquele momento, que até me esqueci de todas as probabilidades dessa história não se encaixar nas nossas vidas da maneira como eu gostaria.

Queria poder te dizer o quanto senti, olhando pra você, e pensando em como seria te levar pra jantar lá em casa e te apresentar os cantinhos, dentro e fora de mim.

Foi quando lembrei que, simplesmente, não podemos dizer o que sentimos, ainda que sintamos o suficiente para inundar páginas inteiras com palavras bonitas, que ainda assim não chegarão perto de descrever o que é isso. Precisamos evitar, inclusive, que o sentimento nos invada a ponto de sufocar todas as nossas frustrações e nos fazer esquecer as regras do jogo.

Não era amor para a vida inteira, nem nada tão pulsante quanto a urgência de uma vida a dois. Mas era quase, um quase muito bonito que eu estava sentindo agora, sabe? Uma vontade de permanecer exatamente ali, sem saber que horas são, sem saber onde vai dar, contanto que eu pudesse sentir os seus lábios tocarem os meus numa mistura de malícia e ternura, que se equilibravam tão bem.

Eu não disse nada, ainda que todas as palavras berrassem aqui dentro um “eu estou sentindo coisas muito bonitas por você nesse momento, mas muito provavelmente não as sentirei amanhã. Acho justo que, pelo menos agora, em nome de toda a poesia que pulsa no mundo, você possa saber das sensações que é capaz de causar em instantes, né?”

Me incomoda viver algo tão bonito aqui dentro, que nunca pude te dizer. Pelo simples medo de transparecer as fragilidades de um ego já tão cansado de se esconder atrás da brincadeira de te-fazer-gostar-de-mim.

Será que se eu tivesse aberto os olhos e dito o quanto isso foi uma das melhores coisas que já experienciei, nós teríamos escolhido ficar?

Acho, com quase certeza, que não teria feito diferença nenhuma e a gente ia simplesmente estar do jeito que estamos agora: traçando caminhos opostos, guardando na lembrança o delicioso gostinho de viver uma das mais belas histórias de amor por vinte minutos.

Te mando um riso de canto de boca, cada vez em que penso em você.
Isso também é um pouco de amor, ou quase.

Mesmo que eu nunca tenha dito.

sábado, 9 de julho de 2016

A poesia que não fomos

Desacontecemos no primeiro instante.
Nem fomos, nem vimos, nem soubemos.
Quisemos ser tantas coisas que agora não seremos.


E não tivemos as dores nem o palpitar.
Acertamos a hora, mas não soubemos ficar.

Desatamos antes do laço.
Desacordamos, antes do sono.


A pressa foi tanta,
Que no fim das contas, nem notamos
Mal começou e nós já acabamos.


terça-feira, 5 de julho de 2016

Basta um olhar, um gesto, um instante de compreensão imediata 
e um riso compartilhado pra que a gente queira que aquele instante permaneça. E ele permanece, na medida em que não nos desfazemos da sensação, não é?


Acho que foi o seu jeito de ler as minhas entrelinhas com muito pouca precisão, ou talvez o meu vício por explicar o inexplicável. Só sei que eu quero conhecer os mundos dentro da sua cabeça e te mostrar os infinitos do meu coração.

Posso estar completamente enganada a seu respeito

mas talvez seja isso o que me move.
 A vontade de descobrir pequenos enganos e me perder nas tuas linhas.
 Nos espaços de nós dois.

domingo, 26 de junho de 2016

intensidade


Tenho um fascínio fora do comum pela profundidade das coisas, sabe? Não tenho nenhuma paciência para a superfície, talvez por considerar que é bem no fundo que se encontram os tesouros mais raros. Principalmente no que diz respeito ao sentir.

Prefiro o que transborda, derrama, esparrama. Se não for assim, não entro no ritmo, não continuo, sequer aconteço.

Gosto das pequenas sensações e despertares. Do toque de desejo inflamado, beijos e abraços demorados, diálogos intermináveis. É importante poder dividir o que se sente, ainda mais quando se sente tanto. Quando se sente muito. Literalmente.

Sou quem desce do muro e aceita pulsar intensamente, de dentro pra fora, todo o amor que houver nessa vida. Por cinco minutos ou uma vida inteira.
Não consigo me encaixar nas regras do jogo. E nem aceitar que realmente existam meios ou formas. Essa necessidade cruel de “deixar pra depois”, pra não parecer fraco, pra não parecer imediatista, intenso, exagerado. É como se mal soubéssemos o quanto sentir é urgente, por si só.
Eu me atiço é com o encontro das almas e a conexão dos corpos. Eu gosto é da intimidade de quem divide as cobertas nas noites de frio e um café forte nos dias difíceis. Eu prefiro sorriso frouxo sem motivo e a vontade avassaladora de compartilhar desimportâncias diárias, porque “lembrei de você”.
Não sei disfarçar. Não sei nem se gostaria de sabê-lo, pois como eu já disse, tenho um fascínio pelo que não cabe em limites. Não aceito me conformar em  passar o resto dos meus dias, achando que a única certeza dessa vida é que vou estar só, como me disseram uma vez.

Não tenho medo de finais infelizes ou mergulhos em águas rasas. Eu me atiro, sem dó nem piedade do meu próprio coração. Sou de me doar por inteiro às histórias que vivo. Não sei viver o morno, meio-termo, mais ou menos, o tanto faz.

Afinal, “a vida só se dá pra quem se deu. Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu”.
E já doeu sim, viu? Como há de doer outras tantas vezes pra enfeitar ainda mais a beleza que é viver de verdade, sem amarras, sem saber onde vai dar. 
 Não é verdade?


segunda-feira, 6 de junho de 2016

Escutem aqui, meninos.

"Cultura do estupro?!", perguntam os incrédulos da santa inquisição hollywoodiana instaurada na internet. Isso existe? Quer dizer agora que cometer um crime hediondo como aquele é cultural? Isso é coisa de monstro, bandido, "tem que virar mulherzinha na cadeia".


Mulherzinha. Assim. No diminutivo.
Virar mulherzinha, então, é o castigo?
E a gente ainda precisa explicar por quê o problema é cultural, estrutural?

E quando você ri da piada machista? E quando você compartilha um nude vazado?
E quando você classifica uma mulher como "pra casar" ou "pra comer"?

Você também é um monstro?


E quando você silencia?
E quando você insiste demais nos tais joguinhos da conquista, por ter aprendido com os ancestrais que na maioria das vezes um não é um "talvez"?
E quando você atormenta, menospreza, despreza, inferniza, desumaniza?

Você também é um monstro?

Pega muito mal não repudiar os 33. Mas tudo bem sentar na mesa do bar com aquele amigo que bateu na ex namorada, e aquele que abusou sexualmente da mina na balada, e aquele outro que chama de vaca gorda puta vadia, e manda calar a boca porque  mulher não entende, não sabe conversar.

Mas o cara é brother, já me ajudou muito. Ele é legal, não fez por mal...

Porque quando é um crime absurdo e inegável, não dá pra passar panos quentes. Como se nao fossem tão terríveis, os que acontecem  a cada 11 minutos no Brasil. E as práticas que ainda não foram criminalizadas, mas que acontecem todos os dias.

E às vezes foi você, seu pai, seu amigo, aquele seu ídolo.

Você também é um monstro?

E aquela menina que vocês desprezam por ser gorda? E aquela menina que vocês desprezam porque já "deu pra todo mundo?". E aquela professora cuja aula vocês lotam pra tentar tirar uma foto mais íntima em um ângulo favorável e mandar para os amigos? E a sua namorada que não pode sair de casa ou ter redes sociais,  a quem você trai constantemente?
E aquela sua amiga que te contou um caso de agressão ou abuso cometido por alguém próximo e você disse "mas tu ambém, deu mole".

Você também é um monstro?

Você? De boa familia, Instruído, militante, desconstruído, apoia a causa LGBT,  promove espaços feministas, tem irmã, mãe, amiga, namorada... Você? Um monstro? Você até fez texto dizendo que nossa eu repudio estuprador? Um monstro? 

Não.
Você não é um monstro.
Os 33 do Rio de Janeiro não são monstros.
Os estupradores não são monstros.

Vocês são todos resultados positivos dos objetivos do patriarcado. Vocês são contribuição para que essas coisas continuem a acontecer.
E as pessoas continuem a arranjar justificativas, saídas, pra dizer o indizível: a culpa é dela. A culpa é de todas Elas.


Estupro não é doença. Não é desejo incontrolável. Não é instinto.

É cultura, é estrutura, é política, é  mecanismo de dominação. Sim. Sim. Sim.

"Everything in life is about sex. Except for sex. Sex is about power" (F. Underwood).

As razões de ser assim, pouco me importam ou me movem. Menos ainda me convencem.

Mas isso tem que acabar. E vai, porque o "sexo frágil" aqui acordou e não vai mais dormir. E não vai mais calar. E não quer mais seus diminutivos.

Vamos continuar lutando, e se vocês não são capazes de tomar UMA ÚNICA posição contrária à estrutura, sinto desapontá-los: vamos passar por cima de vocês também.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Os dias.

Os dias vão passando numa pressa quase assustadora e não é possível sequer recuperar o fôlego entre uma hora e outra.

No fundo, às vezes acho que sou eu que escorrego pelo calendário como quem busca encontrar um minuto de sossego.

Sossego? Ah, vá.
Nunca vi empregarem tantos verbos no imperativo de uma só vez.

Juro, até o amor vem como uma ordem num solavanco e a gente quase não enxerga mais a doçura que devia haver ali, no tal "amar".

E eu, que já não sei o que quero, me perco nos desejos de qualquer coisa que pulse, que vibre, que viva.

E aí as coisas simplesmente acontecem, atropelando umas às outras num esforço desmedido por importância.

 No fundo, nada importa.

A poesia se perdeu num sorriso que decidiu ir embora. Num abraço que cansou de se demorar e nas conversas que não existiram, porque não deu tempo.
Perdeu-se no infinito das distâncias. No silêncio dos corações que não aguentam pulsar de saudade. Nas urgências do dia-a-dia.

 Ás vezes me pego pensando em tudo o que falta. E em tudo o que transborda, absurdamente, apesar disso ou daquilo.


E continuam a correr os dias. Pra onde será que vão com tanta pressa?

terça-feira, 22 de março de 2016

Sou uma puta

Oi, eu sou uma puta.
Por que a surpresa?!
É você que vive me chamando assim.
Isso já é normal pra mim.

Mas o que isso significa, afinal?
Que eu sou nada mais do que engolidora de pau?
Que eu vim ao mundo pra te dar prazer?
Que eu não sou nada sem você?

Então, eu sou uma puta.
Porque você me pede sexo, me pede um beijo, me pede uma cerveja.
E eu dou. É assim que eu sou.

Não é?

Sou suja, impura, indigna, vou pra cama com todo mundo.
Se eu discordo, é porque sou puta.
Se eu concordo, é porque... Adivinha?Todos sempre comentam o quanto eu sou uma vadiazinha.

A minha mãe é outra puta.
A minha avó, também foi uma.
Não adianta querer mudar o que sempre foi assim.
Tenho que aceitar o que você acha de mim.

Eu sou puta quando sonho com um salario maior.
Eu sou puta quando brigo por espaço.
Eu sou puta quando te nego sexo.
Eu sou puta quando mato tua sede.
Eu sou puta quando apanho.
Eu sou puta se ousar bater.
Eu sou puta quando digo sim.
Eu sou puta, ninguém vai gostar de mim.

Puta. PUTA. P-U-T-A.
O que será que isso significa?

Que eu sou menos importante?
Que eu sou insignificante?
Que meu grito é histeria,
Minha vida vazia?

Não sei.
Mas sempre fui puta.
Antes mesmo de ser mulher.
Antes mesmo de ser gente.
Antes mesmo de querer ser amada,

Mas quer saber?
Isso não significa nada.

No fim das contas o seu desejo é me calar.
Claro, depois de me usar.

Mas eu aprendi desde cedo, que eu posso até ser uma puta,
Mas sou uma puta que ousa lutar._

segunda-feira, 14 de março de 2016

Não digo

Eu não te direi o quanto me desconserta. Nem o quanto me bagunça. Porque eu não quero nem por um segundo admitir que seu plano, seja ele qual for, funcionou comigo.

Eu não te direi que sinto a sua falta em mais momentos do dia do que sou capaz de admitir em voz alta.
E muito menos o quanto a sua presença deixa qualquer lugar absolutamente confortável.

Eu não direi dos versos, das madrugadas e das reviravoltas que meu coração dá quando penso em você.

Não digo.

Nem digo também o quanto me pesam essas vontades loucas e o quanto eu me esforço pra manter o equilibrio nessa corda bamba de querer você.

Não digo que seu toque me tira do sério, dos eixos, da órbita, do chão. Muito menos que todas as coisas que eu faço, mesmo quando você não está, são pra te agradar.

Eu digo nada. Digo não senhor.
Vou permanecer assim sem dizer uma só palavra.

Até porque, devo admitir, esqueço de todas elas quando você sorri. 

terça-feira, 8 de março de 2016

Feliz dia das mulheres?

Feliz dia das Mulheres.
A todas as mulheres que me trouxeram até aqui, e me ensinaram muito sobre o meu valor. A todas as mulheres  que eu não conheci e que, ainda assim, contribuíram com suas histórias para que meu pensamento fosse livre e pra que eu tivesse a força e a coragem para buscar as liberdades a que tenho direito.
Feliz dia das Mulheres;;
Às minhas irmãs de luta e às que ainda não entenderam que precisamos lutar (e muito). A todas que, como eu, já foram silenciadas, humilhadas, agredidas (física ou psicologicamente) e ainda assim, não desistiram de si mesmas. 
A todas. Porque todas são admiráveis!
Feliz dia das Mulheres.
Às negras, indígenas, não brancas e brancas também. Às minhas crespas, cacheadas e do cabelo liso. Às marisqueiras, mulheres do campo, do sertão, da cidade.  Às mulheres que “não têm vagina, nem útero, nem tem ovário, por diversos motivos e não apenas por um único.” Às mulheres lésbicas e às bissexuais.
Feliz dia das Mulheres.
Às mulheres que se relacionam com outras mulheres e se amam. Porque sororidade deveria estar na moda. Pratiquem.
A todas nós, que não precisamos seguir os padrões do “feminino”, nem agradar nossos homens na cama, nem odiar “azinimiga”. A todas nós que reconhecemos nossos valores e entendemos que eles não são, NEM SERÃO, maiores do que as outras de nós.
Obrigada a todas vocês por tudo o que me ensinam diariamente. Obrigada por me fazer querer ser mais e sempre. Parabéns pela luta diária, pelo enfrentamento, pelo empoderamento.

Não sou Amélia e,  hoje, não quero flores. 
Quero respeito, dignidade e ESPAÇO para ser exatamente o que quiser.

terça-feira, 1 de março de 2016

Foi quase.

Eu quase me apaixonei por você, sabia? Não sei se por carência ou tédio, ou se por algum motivo o seu riso tímido quase me encantou de verdade.
Quase.
Quase desejei que seus beijos não desgrudassem dos meus e que a gente andasse de mãos dadas pelas ruas da cidade, como quem diz que finalmente a busca acabou. Ou que a gente passasse os domingos jogados no tapete ensaiando canções de amor. 
Quase, quase, que eu passei as noites te lembrando antes de dormir e os dias falando de você até ninguém aguentar mais.
Provavelmente haveriam borboletas dançando nos jardins do meu coração sempre que você chegasse. E o som do seu nome me causaria um formigamento engraçado nas bochechas.
É sério, foi por pouco que eu não entrei nessa dança maluca de quem entrega o coração assim: sem mais nem menos. 
E aí eu acharia você a pessoa mais maravilhosa que esse mundo já conheceu. E sentiria um conforto imenso nesse teu abraço de urso. E ainda iria querer morar nesse teu riso sacana. 
Quase que eu aceito me acostumar com o som da tua voz, o teu cheiro, aquela sua mania de me olhar como quem é capaz de atravessar a capa e acessar a alma. E ainda com tuas ironias e reações exageradas. Teu café meio fraco e teu toque urgente.
Você acredita numa coisa dessas?
Foi por pouco.
Mas muito, muito pouco... Sabia?