sábado, 4 de junho de 2011

Desamando

Olha, eu vou dizer apenas uma vez, porque depois disso não vai adiantar repetir: eu amo você.
Amo, amo e amo. Inclusive as suas piadas sem-graça e a maneira insolente com que você faz arroz. Cara, nunca entendi um ser humano que não sabe fazer arroz como você.
Enfim, é sério. Eu amo até o som da sua risada e o seu rosto inchado de manhã. Amo e não esqueço nunca de como você fica no frio, desejando amargamente que quando você acordar o sol esteja no céu brilhando e convidando você prum surf na praia.
Mas acontece que meu amor envelheceu. Ficou passado, desgastado, cansado. Perdeu o brilho do começo, sabe?
Eu perdi a vontade de te ver todos os dias, de saber como você anda, de vasculhar seus bolsos pra saber se não tem um bilhete ou um lembrete de outra. Perdi. Perdeu-se tudo com o tempo.
Eu só não sei como explicar isso de amá-lo sem amar mais. Porque eu sei que amo pois ainda sorrio se penso em você. Mas eu não penso tanto. É tão confuso... não sei se você consegue acompanhar meu raciocínio.
Eu sempre vou amar você.
Posso conhecer um milhão de pessoas, todas elas maravilhosas, que façam o melhor arroz do mundo e aceitem tomar chocolate quente no frio sem amaldiçoar meio-mundo de gente, que gostem de ler, de olhar o tempo passar na janela e sejam menos hiperativas e IMPERATIVAS do que você. E eu posso até amar cada uma delas. Mas eu continuarei amando você.
E querendo seu bem, seu sorriso mais aberto e sua presença.
Eu só não quero mais você. Entende?
É isso, acabou. Quer dizer, eu sei que você já deve ter percebido que o espaço no armário aumentou e tem um peixe a menos no aquário. (Não fazia sentido deixar a ''Ela'' contigo - mas o ''Ele'' ficou, alimente-o por favor).
Deixei uma fatia de bolo na geladeira. Não me procure mais, deixe o tempo nos juntar um pouco mais tarde.
Um beijo grande, sweetie. Te amo, viu? Amo sim.

Fui.

ps: Você precisa aprender a lavar suas meias, agora. E a fazer arroz.


(inspirado num casal de amigos. Ou ex-casal, como preferirem)

4 comentários:

Ewerton[Thon] disse...

Bem legal o texto.
Parabéns!

ticoético disse...

A droga é o sujeito encontrar isto voltando do trabalho com a maior fome do mundo,na hora do jantar,sem saber fazer um arroz "comível" e só ter uma fatia de bolo pra acabar com a fome,mas o texto ficou bom,enfim,bela.

abraço !

Ana Vicente disse...

Tão lindo que eu queria ter escrito!!!
Me sinto meio assim....

Laura K. disse...

Por vezes fico em dúvida: é melhor amar ou não amar?