domingo, 31 de outubro de 2010

Morreu de quê?

Esse aí morreu de velho, num sabe?- disse um dos muitos que se amontoavam para ver a confusão que se formava. O dia estava estranho, fazia Sol e nublava ao mesmo tempo, dando um ar meio sombrio à cena. As pessoas só observavam aquele moço lá inerte, esticado ao chão morno da estradinha de Terra do Arraial Broken, completamente morto. Um defunto no meio do caminho.
-Morreu foi de tanto trabalhar... Ouvi dizer que esse é aquele fazendeiro da Quinze, num tem? -Acordava antes do dia e dormia depois da noite, quando muito...Morreu de cansaço dessa vida. - retrucou uma senhora bem baixinha que vinha passando com uma trouxa na cabeça. Seu ar engraçadamente aborrecido chamou a atenção de Dona Clotildes, que gritou de lá:
-Que nada, essa menina... ele morreu mesmo de calor. Num tá vendo que nem quando diz que vai chover o tal do Sol dá uma trégua? Ninguém 'guenta não...

E começou a confusão. Um gritava de lá, outro de cá, mas ninguém se dignou a chegar junto do defunto. Não sabiam o que fazer, mas parecia necessário descobrirem através de um debate demorado, a causa mortis. E cada vez mais gente pra dizer que ele tinha morrido de ''tanto pegar mulher dos outros'' e outros impropérios póstumos.
Continuaram todos a uma certa distância.
O Sol já ia se pondo, muita gente já ia indo embora, mas ninguém tirava o tal do homem do meio do caminho. Ninguém.

Uma menininha que vinha segurando a mão do seu pai, no sentido oposto à confusão, ouvia tudo atenta, com os olhinhos piscando nervosos sem saber exatamente o quê significava ''defunto'', puxou a mão de Seu Junior e falou:

-Papai, será que ele não morreu de tanto esperar?

Junior piscou assustado, arregalou bem os olhos e disse:
-Esperar o quê, menina véia? Onde já se viu? Sabe de nada.. não fala bobagem... Ninguém morre de tanto esperar - ele coçou a cabeça.

-Esperar alguém vir, papai. Alguém que ficasse com ele na vida, não tem? Daí ele resolveu morrer pra ver se lá na morte tem gente pra viver com ele.
-Mas menina, cê nem conhecia o moço, como diz que ele é sozinho?
-Estamos aqui há horas, e mesmo antes de a gente chegar, já tinha um bando de moço ao redor dele, mas ninguém conhece o homem, papai. Ninguém abraçou ele, ninguém chorou por ele, nem sentiu falta. Eu acho mesmo é que ele morreu de esperar que houvesse alguém. Mas aí não houve...

Junior arregalou os olhos, abanou a cabeça e saiu puxando a menina pela mão, dizendo:
-Vumbora que sua mãe espera a gente pra janta, deixa o defunto aí, que importa de que ele morreu?

E foram. Mas o defunto ficou lá.
Por mais uns quatro dias, até ser empurrado mais pra lá, pra não atrapalhar a passagem.

Colombina diz:

Se eu pudesse, não me enfraqueceria diante das promessas de Arlequim e me entragaria de corpo, alma e tudo o mais, a meu bendito Pierrot.
Só que essa vida de Colombina não é fácil, sabe?
Essas dinâmicas do coração também são umas porcariazinhas, se você quer saber.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Entendi depois de um tempo II

E é quando você não vai se importar se o bar é bem iluminado, bem localizado e se a cadeira é de metal ou de almofada. Sua risada vai ser forte e audível, e você não vai sorrir só com a boca, mas com os olhos que ficam miúdos e extensos, com o nariz que enruga de forma esquisita e com os braços que se encolhem e se abrem freneticamente. A cerveja sempre parecerá gelada, o refrigerante é uma maravilha e o suco indispensável. E mesmo que o lugar esteja vazio, a sua mesa estará cheia de histórias pra contar e gente querendo ouvir. E não importa se os encontros ficarem esporádicos, se a conversa passar a ser por telefone ou se um dia haverá uma decepção. Vocês sempre terão uns aos outros.

Daí você vê que é vital, indispensável e maravilhoso ter certas pessoas por perto. Você vai fazer de tudo para não decepcioná-las e vai sentir recíprocidade nisso.
O único problema é que encontrá-los é raro. Costumam chamar de Amizade.

Sobre quando ela voltou

Lá estava eu, deitado na cama do hospital, meio envergonhado com aquela roupa branca e transparente, e sem saber como contar ao médico o que havia acontecido. Daí eu me lembrei do conselho popular ''comece pelo começo'', e foi por onde iniciei:

- Primeiro que eu não sabia que ela ia embora, sabe doutor? Vai ver por isso não me preparei e acabei ficando num estado meio vegetativo nos primeiros meses sem ela.
Mas tudo ficou bem quando eu finalmente percebi que a vida é uma eterna desventura e que aquela não seria a primeira nem a última a me deixar. Após uns quatro ou cinco meses, eu só bebia socialmente, já tomava banho normalmente e até notava mulheres no caminho pro trabalho. Tudo ia se normalizando, como eu sabia que tinha que ser...

- Mas rapaz, o que realmente lhe trás aqui ao hospital? - disse o velhinho impaciente consertando seus óculos e massageando os cabelos ralos e brancos.

-Então, doutor, deixar eu continuar... Né, tudo estava se normalizando. Pelo menos até aquele fatídico dia, em que eu resolvi ir pra casa andando, mesmo na chuva, pra evitar a fila e a lotaçao do ônibus. Eu ainda não sei se acho bom ou ruim, mas o que aconteceu foi meio inusitado, sabe? Primeiro que vê-la, ali, exatamente como sempre fora, linda no seu vestido lilás e com aqueles sapatos muito velhos e gastos que só deviam cair bem nela, distante de mim apenas uns vinte passos, me deu um embrulho no estômago daqueles que você só sente após umas quatro cervejas, num dia frio. Eu sei, eu poderia ter desviado, mas não quis. Preferi ver no que dava.

-Isso aqui não é a Ala Psiquiátrica, meu senhor. O que aconteceu, está doente mesmo ou só precisando de anti-depressivos? - bufou o Doutor Whatever, como quem quisesse me dar um soco no estômago pela minha enrolação prolíxa.

- Bom, doutor, o caso é que a gente não se via há tempos, e quando eu cheguei mais perto, ela me sorriu. E eu sabia que ela me queria e eu a queria e a gente se quis e aconteceu... Nos beijamos de novo. E foi estranho, porque eu não tinha a mínima idéia de qualquer coisa que poderia passar pela cabeça dela, depois de ter ido embora daquele jeito. Mas eu também não me importava com nada a essas alturas, sabe? Daí, sei lá, aconteceu muita coisa e eu senti umas dores meio boas e ruins ao mesmo tempo e um gosto muito, muito estranho. Mas aí, quando eu cheguei no meu apartamento e me olhei no espelho, vi que as coisas haviam mudado e estavam como estão. É.. não se assuste - eu parei de falar, e abri um pouco a boca, fazendo sinal para que ele chegasse perto. Minha voz saiu engraçada, dessa vez. Meio engasgado, falei - Foi assim que ele veio parar aqui. É grave? Dá pra pôr no lugar de volta e fingir que nada aconteceu?

O Doutor W, me olhou estranho dessa vez e arregalou os olhos, dizendo:
- Olha, meu caro paciente, é a primeira vez que eu vejo um coração sair pela boca. Vamos ver como dá pra intervir...


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conto-presente pruma amiga, que ela faça o que bem entender. :)

sábado, 23 de outubro de 2010

Um sábio me disse...



-Olha, essa coisa de se apaixonar e se relacionar, é normal. Não pense que vai mudar ou melhorar com o passar dos anos, não, viu? Vai ser seeeeempre a mesma coisa. Seeeeempre daquele jeito. Vai ser como se fosse a primeira vez, todas as vezes. E é assim que é. Mas o problema mesmo de ter alguém, é a forma com que você o ''possui''. Tente entender. Você já teve um gato, não teve? E um passarinho? Sim. Pois é, qual dos dois ficava na gaiola? E qual dos dois vivia livre, e passava a maior parte do tempo com você, em seus braços? Gostar de alguém é mais ou menos como criar um gato, e nunca um passarinho. Não coloca numa gaiola, não prende, não impõe convivência, que isso é uma merda. O passarinho até fica ali na gaiola, comendo do teu alpiste e bebendo da tua água. Mas o pensamento dele está nos ares, nas florestas, nas passarinhas que ele perde de conhecer, e assim que ele tiver uma chance, quando você vacilar com a gaiola, ELE VAI VOAR PRA LONGE, BEM LONGE DE VOCÊ. E ele não volta não, viu? Mas veja o gato. No começo, ele vai querer conhecer todos os cantos, e ficar distante. Ai você dá um leitinho, uns biscoitos, um carinho.. e ele começa a vir todas as manhãs pra perto de você. Gato é um bicho difícil de conquistar, tipo gente. Mas no final é basicamente isso: eles não precisam de muito para se sentirem necessários e necessitarem também. Quando você menos nota, ele não sai mais de perto. E nem precisou de gaiola, entendeu? Pois é, é mais ou menos isso aí..
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texto publicado também no blog da Mayara Buss :D

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Conto o encanto do encontro

Eu falo alto, você me encanta.
E eu disfarço, mas não adianta.
Você sorri e me enlaça.
Meu coração desembaraça

E mesmo que você vá embora,
Eu irei até você.
Pra dizer em alto e bom tom:
'Não consigo te esquecer''

Um dia, meu bem
Um dia eu te encontro.
E aí eu te conto:
Você é um encanto.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Entendi depois de um tempo

E um dia entedemos que independente dos conselhos da mamãe, do apoio da melhor amiga e do tempo de meditação para decidir por onde começar, vamos errar. Errar pra que saibamos que se uma coisa pode dar errado, dará. E se não pode, às vezes dá também. Porque a vida é assim.
Só que não adianta achar que SEM-PRE vai doer do mesmo jeito. Afinal, uma mesma pedra no meio da estrada pode causar leves arranhões ou cortes bem profundos. Depende da intensidade da topada. E quem tem culpa nisso, infelizmente, somos nós. Mas é involuntário. In-con-tro-lá-vel.

E sabendo disso, você compreende que vale tudo nessa vida. Só não vale perder a vontade de tentar.
Ouvi dizer que o nome disso é Persistência.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Pequena Epifania

(...)
-Vamos lá: Nós somos amigos?
-Sim.
-Só amigos?
-...
-Só amigos?!
-Hm..não...
-Então, o que é?
-Eu não sei, eu preciso de tempo.
-Mania de ter certeza...
-Não é certeza, é tempo.
-Tempo pra ter certeza.
-Não. Tempo pra ver o que é.
-Eu não preciso de tempo, já sei.
-O que você sabe?
-Que eu tenho me apaixonado por você. Eu não sei como é esse processo, se é lento ou rápido, mas eu sei que é intenso. Que a cada dia eu sinto mais vontade de lhe ver, de demorar ao seu lado, ter você por perto. E eu não precisei de muito tempo pra perceber essa minha exagerada mania de você. Não me importo com o rumo disso aqui, sabe? Se amanhã eu já achei outra distração ou você resolveu parar de me ligar. Mas agora, exatamente agora, eu estou querendo você muito.
(...)

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

E eu só vou falar uma vez...

Não gosto, não estou afim, não acho legal e não vejo motivos.
É isso que penso quando, por acaso, encontro na blogsfera um texto meu jogado por aí. Sem aspas, sem referencias, assim, um plágio. Daí que eu sempre brinco dizendo que internet é mesmo isso: colocou na rede, aguente ter seu texto criticado ou idolatrado, ou ignorado.. e na pior das hipóteses copiado. Mas é crime, sabia? E não digo só no sentindo 'proibido por lei' da coisa, mas também no sentido ''puta falta de sacanagem''.

Eu não vou me esticar no tempo. Só queria dizer que, POR FAVOR, dêem créditos aos autores ''anônimos'', cujos textos lhes agradaram. Não pedimos dinheiro, nem suas cabeças numa bandeja. É só a tal da aspa, seguida de parentese com nosso nome e sobrenome dentro ENTENDERAM?. Só-is-so!
À moça em especial, que já recebeu minha visita e meu comentário, peço encarecidamente uma reforma em seu blog. Em meu nome e no de todos os pobres coitados que vossa senhoria andou copiando safadamente.
Caro contrário, sinceramente acredito que todos vocês deveriam tomar no...
O conteúdo restante do texto foi removido por conter xingamentos explícitos a todos esses filhos de uma puta que roubam os caralhos do texto da autora desse humilde blog e de outros mais.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Pode ser, né?

Pode ser que a gente saiba exatamente o que quer com alguém, no momento em que o conhecemos.
Pode ser que relacionamentos à distância dêem certo.
Pode ser que um dia se encontre a fórmula do amor.
Pode ser que ele esteja mentindo quando diz que está só com você.
Pode ser que nunca seja dita a verdade.
Pode ser que doa.
Pode ser que canse.
Pode ser que nunca mude.
Pode ser que você passe.
Pode ser que sim.
Pode ser que não.
É tudo uma questão de como, quando, onde e por quê.


Fruto de muitos conselhos. (sempre positivos ou negativos demais)

sábado, 2 de outubro de 2010

Meio assim

Ela foi meio sem vontade,
prum lugar meio-vazio,
à meia-luz, com uma gente meio estranha...
À meia-noite, ele apareceu e lhe
ofereceu um sorriso e um papo.
Daí ela voltou pra casa
meio-apaixonada.


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