terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Você virou uma palavra

Ah, poetizar...
Deve ser um dos maiores erros da civilização moderna. Que é quando a gente transforma um grão de areia num deserto, um copo d'água numa tempestade e o leite derramado num estado de luto profundo. Isso pra não dizer quando se transforma simpatia em gostar, gostar em paixão, e paixão em todo o resto. Por isso que os poetas são, incontestavelmente, os maiores sofredores da humanidade. Porque eles sentem com cada parte do corpo, assim como qualquer um, mas ao contrário de gente normal (e feliz), as sensações dos poetas começam pela cabeça. Tudo fica embelezado quando vira poesia, texto, parágrafo ou oração.
Dito isso, volto mais uma vez (e espero que seja a última) a falar de você, que me chegou em forma de verso. Um verso curto e grosso, que foi se alongando e virou poesia. Quando alguém é poesia dentro de outro alguém, as borboletas fazem festa. Tudo parece maior e melhor do que realmente é, e a vida começa a se desenhar bonita e azul. É muito bom sentir poesia. E eu senti ''poesia'' por você, no começo.
Depois foi aumentando, virando prosa. Um parágrafo inteiro na minha vida. Você era Letra MAIÚSCULA, virgulas e pontos de continuação. Daí, quando finalmente eu consegui enfeitar demais a situação... o suficiente pra que você fosse virar um texto inteiro...a tinta da caneta acabou, a inspiração cessou e você partiu.
Você simplesmente foi embora.
E fiquei eu, com um parágrafo, uma poesia, um verso e saudade.
Aí eu descobri, que enquanto tecia um texto inteiro e imaginava um livro, eu fui uma frase, o tempo inteiro. Consegue entender? Você me foi parágrafo e eu lhe fui uma frasezinha, o que me fez, instantaneamente, criar uma vontade incontrolável de ser mais.
Entrei de cabeça no jogo de fazer você me ver mais, me querer mais, me sentir mais. Queria ser sua poesia, seu parágrafo... qualquer coisa que lhe fizesse sentir por mim o que eu sentia - ou acreditava sentir - por você.
Sofri mais, dessa forma. Porque não há limite, nessa história de querer ser reticências.
Pra descomplicar e simplificar, o negócio é que eu transformei e engrandeci a coisa toda, fazendo doer ainda mais em mim. Só em mim. Afinal, eu sempre fui a única afetada por isso.
Mas hoje, eu finalmente reconheço que eu não posso me contentar em ser frase, pra quem me foi parágrafo inteiro. E pior: eu não posso querer mudar o pensamento, o sentimento, a vontade e o viver de ninguém, posto que sei mais do que todo mundo que esse tipo de coisa não é possível. Não se faz. E daí que eu venho me recompondo, escrevendo e tirando verso por verso de você daqui de dentro.
Não é trabalho fácil, visto que eu inventei foi muita coisa pra sentir, querer e acreditar. Tudo culpa minha mas você sabe quem desenhou o primeiro P dentro de mim. Certo? Paixão essa que hoje é só um nome.
Falando nisso, não sinta pena, não sinta remorso e nem algum tipo de sensação estranha ao ler isso -se ler-, tudo bem? Posto que já lhe reduzi a palavra.
Você agora é uma palavra. Um substantivo masculino, de vez em quando pronome pessoal do caso reto e jamais, em nenhuma circunstância é possessivo.
Palavra sem rima, jogada, no meio de outras tantas e de uma maioria que eu já percebo novamente.
Ou seja, não há mais poesia em mim, pra você.
Só me restou o que de fato é, e se lhe serve de consolo, ainda é bastante.
O que eu sinto, sem floreios, continua sendo grande, bonito e sensível. Mas vai passar.




(escrito em 22/11/2010, guardado a sete chaves com timidez. Hoje não mais.)

17 comentários:

ratoderua disse...

PQP!!!

Ô menina que escreve, viu! Te falar!!! Sensacional Má. Simplesmente... SENSACIONAL!!! Te entendi do início ao fim. Me vi em cada uma dessas palavras. Putz! Foda! Parabéns!

Eu fiquei com medo de poesias, sabe? É até engraçado dizer isso. E de borboletas também. Foi após descobrir que borboletas podem matar mais rápido que um mosquito da dengue...

Se cuida, doida! E segue Tio Johnnie:

"Keep Walking" (Johnnie Walker) ;)

Bjs!

Erica Ferro disse...

Ai, Midlej, nem posso falar muito... Porque temo me denunciar de alguma maneira por aqui...
Só posso dizer que todas essas tuas palavras, todos esses teus sentimentos se assemelham muito aos meus, muito mesmo.
E eu sofri porque eu amei demais a ideia que eu fiz de alguém e quis ser tão especial quanto esse alguém é pra mim.
O que me consola é que já não sofro mais, já não sofro tanto quando eu sofri.
Ele ainda continua sendo texto, não sei quando se transformará em "palavra"... Mas por enquanto o fato de amar mais calmamente, sem nenhuma esperança que eu seja texto pra ele também, me basta.
Perdi a fé em amor recíproco por amor a mim mesma, por não mergulhar numa espera sem fim e sem futuro algum. Deixo assim...
Vou amando pelo prazer de amar.

Belo texto, belo mesmo!

Beijo.

Steph disse...

Perfeito, fiquei sem fala...

beijos Má!

Lívia Inácio disse...

Ahh,vc pode ter certeza: Passa!

Mariana Andrade. disse...

isso foi REALMENTE sensacional.
e, má, quando passar tudo isso, vais ver que poesia bela é o que tens batendo aí dentro do teu peito. que sente, sofre, e é forte o bastante pra se recuperar.

beijos.

'Lara Mello disse...

Há, vai sim minha querida..2 Certezas que temos: Morte e que vai passar!FATO# Obrigada pela visita! Bju

Marcelo Zaniolo disse...

Gostei MUITO da metáfora.
Muito mesmo. E, quem sabe, até use ela um dia =)

(se deixares, claro! Haha)

E lembrei de uma dezena de músicas quando li a parte de "fui uma frase". Alias, essa frase tua foi curta, direta e, apesar do tamanho, de um conteúdo imenso de interpretação.

Gostei! Hehe

Quanto ao texto, as coisas são geralmente assim, né? Li ontem, acho (e também não lembro onde), que para uma relação dar certo para alguém esse alguém tem que ser o que ama menos, que se importa menos.

Caso contrário...
Busca-se as reticências e se faz infeliz.

(outra ótima metáfora)

Mas vai passar. Tenho certeza.

E, mais uma vez e espero que não seja a última (desculpe o plágio de seu texto! Haha), obrigado pelo comentário no meu Blog.

Foi um dos textos que mais demorei pra ter coragem de postar (até porque estava esperando o dia certo), que mais me demandou tempo e mexeu com meu "eu" propriamente dito. Mas ele me deixou deixou realmente feliz pelos comentários, também. Principalmente pelo seu.

Obrigado. Fiquei contente com ele! Hehe.

Beijo e bom resto de semana =)

Ju Fuzetto disse...

"O que eu sinto, sem floreios, continua sendo grande, bonito e sensível. Mas vai passar."

Sempre passa, um dia, outro, depois, nascem outras manhãs de sol, as letras se apertam nas pequenas frases e deslizam nos olhos formando canção!!

Adorei teu canto, demais...
parabéns. beijo

Thaís. disse...

Você ahazza.

Sem mais.

Carla Dias disse...

Sempre passa, né?
O ruim é quando por algum motivo, não quer que passe.

Beijo, Má.

Fernand's disse...

lindo...
e mesmo que a gente não queira, passa mesmo. aos poucos vai deixando de ser, vai ficando embaçado e deixa de ser poesia.


não sei feliz ou infelizmente.
lindo seu blog.
bjs meus

Henrique Miné disse...

você com essa sua sinceridaade transforma qualquer um em leitor, Midlej :b

E bem, passa mesmo, sou meio especialista em dizer isso, mas é que é verdade.

Ah, e to sentindo falta de você nos seus outros bloogs, poxa :/

beeeeijos.

Marcela Alves disse...

Que lindo, é perfeito voce encanta a gente com seus belos textos....


Beeijos

Brenda Matos disse...

Maria, eu vou te dar uns tapas por você escrever tão lindo e perfeitamente, sua vaca. Sabe que se eu falasse palavrão os usaria aqui pra elogiar o seu texto, né? Mas você pode imaginá-los por mim. :)

Beijos, amiciña do corazón. <3

Tangerina disse...

eu me apaixonei por um poeta. que me fez uma poesia linda, que me amou, que me declarou, que me circulou, e agora me riscou.
foi embora, voltou pro recife e disse que quando voltar vai voltar casado... me deu um tapa na cara, um pé na bunda, um balde de água gelada, me deu tantas coisas... quase matou meu coração... ai doeu.
mas de tudo, o que mais me dói agora são as poesias dele.
espero esquecer logo o endereço dele. e dele.


um beijo.

Charlie B. disse...

Awnn...já amei assim, amei um livro tudo, uma pessoa por cada pedaço medíocre dela, mas no fim, nunca fui plenamente correspondido e a tal pessoa (vacona) foi embora. Mas eu reduzi toda ela por um ponto final. PE-GA.

"Daí, quando finalmente eu consegui enfeitar demais a situação... o suficiente pra que você fosse virar um texto inteiro...a tinta da caneta acabou, a inspiração cessou e você partiu."

Lindo isso.

Beijos em ti,

Charlie B.

Anônimo disse...

O texto que mais gosto, dentre tantos que já li. Sou encantada com cada palavra usada e, principalmente, o jogo de sentido que criam.
Parabéns por conseguir por em palavras o que, no máximo, conseguimos pensar.