quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Sobre quando ela voltou

Lá estava eu, deitado na cama do hospital, meio envergonhado com aquela roupa branca e transparente, e sem saber como contar ao médico o que havia acontecido. Daí eu me lembrei do conselho popular ''comece pelo começo'', e foi por onde iniciei:

- Primeiro que eu não sabia que ela ia embora, sabe doutor? Vai ver por isso não me preparei e acabei ficando num estado meio vegetativo nos primeiros meses sem ela.
Mas tudo ficou bem quando eu finalmente percebi que a vida é uma eterna desventura e que aquela não seria a primeira nem a última a me deixar. Após uns quatro ou cinco meses, eu só bebia socialmente, já tomava banho normalmente e até notava mulheres no caminho pro trabalho. Tudo ia se normalizando, como eu sabia que tinha que ser...

- Mas rapaz, o que realmente lhe trás aqui ao hospital? - disse o velhinho impaciente consertando seus óculos e massageando os cabelos ralos e brancos.

-Então, doutor, deixar eu continuar... Né, tudo estava se normalizando. Pelo menos até aquele fatídico dia, em que eu resolvi ir pra casa andando, mesmo na chuva, pra evitar a fila e a lotaçao do ônibus. Eu ainda não sei se acho bom ou ruim, mas o que aconteceu foi meio inusitado, sabe? Primeiro que vê-la, ali, exatamente como sempre fora, linda no seu vestido lilás e com aqueles sapatos muito velhos e gastos que só deviam cair bem nela, distante de mim apenas uns vinte passos, me deu um embrulho no estômago daqueles que você só sente após umas quatro cervejas, num dia frio. Eu sei, eu poderia ter desviado, mas não quis. Preferi ver no que dava.

-Isso aqui não é a Ala Psiquiátrica, meu senhor. O que aconteceu, está doente mesmo ou só precisando de anti-depressivos? - bufou o Doutor Whatever, como quem quisesse me dar um soco no estômago pela minha enrolação prolíxa.

- Bom, doutor, o caso é que a gente não se via há tempos, e quando eu cheguei mais perto, ela me sorriu. E eu sabia que ela me queria e eu a queria e a gente se quis e aconteceu... Nos beijamos de novo. E foi estranho, porque eu não tinha a mínima idéia de qualquer coisa que poderia passar pela cabeça dela, depois de ter ido embora daquele jeito. Mas eu também não me importava com nada a essas alturas, sabe? Daí, sei lá, aconteceu muita coisa e eu senti umas dores meio boas e ruins ao mesmo tempo e um gosto muito, muito estranho. Mas aí, quando eu cheguei no meu apartamento e me olhei no espelho, vi que as coisas haviam mudado e estavam como estão. É.. não se assuste - eu parei de falar, e abri um pouco a boca, fazendo sinal para que ele chegasse perto. Minha voz saiu engraçada, dessa vez. Meio engasgado, falei - Foi assim que ele veio parar aqui. É grave? Dá pra pôr no lugar de volta e fingir que nada aconteceu?

O Doutor W, me olhou estranho dessa vez e arregalou os olhos, dizendo:
- Olha, meu caro paciente, é a primeira vez que eu vejo um coração sair pela boca. Vamos ver como dá pra intervir...


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conto-presente pruma amiga, que ela faça o que bem entender. :)

5 comentários:

paula disse...

muito fofo o seu conto. mas acho q às vezes o coração sair pela boca não é de todo ruim, e deve ter conserto...

=)

Ana Vicente disse...

Não conseguia parara de ler...

Luciana Brito disse...

Own!
É bem essa sensação quando reencontramos quem um dia foi embora. Meu coração quase sai, mas preferiu ficar pra continuar sentindo tudo aquilo por mais tempo.

Adorei o texto, Má!
Beijo!

Marcela Alves disse...

auhahuahu que conto fofo!mais deve ter concerto sim o cora~ção sair pela boca.. auahuau

beeijos

Sasha Portrait disse...

que coisa superfofa! *-*